
Um Pat Garrett moralmente equivalente a Billy The Kid, explicando a sua redenção nos termos de “chegamos a uma idade em que já não nos apetece saber o que vai acontecer a seguir. E daí...” São os" irmãos de sangue" num lado oposto da barricada por a vida dar tantas voltas, that's what happened...
Quando no início do filme é perguntado a Billy The Kid porque não matou o seu companheiro este apenas diz: "why? He's my friend...". Talvez por isso seja Pat Garrett a ser visto morto no inicio do filme. Como se esse inicio fosse um espelho do fim. E é com esse espelho que somos confrontados ao longo de toda a trama do filme. Onde se vê Pat e Billy respeitados da mesma forma por todos. Sobretudo por Alias (um Bob Dylan au point) que é um género de eixo da acção, ponto central num círculo de opostos que se atraem. Ele, que fora de tudo é "aéreo" o suficiente para fazer derreter o coração dos dois de forma equivalente, eles que são absolutamente equivalentes.
Peckimpah filma tudo isto com a música de Bob Dylan e com o espaço dos grandes westens da história. Os diálogos são de uma síntese absoluta. Cada palavra lançada tem um significado próprio, faz parte do jogo. É dada como inevitável cartada. Há espaço ainda para a bebida, constante no filme, todos bebem muito, Pat Garrett bebe sempre. E por fim há as mulheres. Amadas tanto por um como pelo outro. Ao sabor do local onde se está, e do momento.
Com Kris Kristofferson, numa versão cool de William H. Bonney (Billy the Kid), e o grande James Coburn como um Pat Garrett mais rude que nunca, céptico até ao tutano, intratável. Um homem cheio de dúvidas que se agarrou à moralidade por ser a única corda que o sustenta. Ou então definitivamente "convertido", mas escondendo a sua verdade aos velhos companheiros. Escondendo-se por trás daquele olhar frio e indiferente.
Talvez tenha sido este estranho Pat Garrett, complexo e contraditório que tenha provocado o verdadeiro conflito de Sam Peckimpah com a MGM. Provocando a "singularidade" de um filme que não é totalmente acabado - ainda com superficies pouco polidas, a deixarem margem para um tratamento, um aprofundamento - mas que ainda assim é a peça genuína que se vê. Cheia de portas por abrir. Que é como um grande vinho de casta que foi pouco trabalhado. E que ficou aquele portento... Dê por onde der: obra-prima.
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