
"Entendam o meu protesto: nada tenho contra Cláudia Vieira. Bem pelo contrário. Cláudia Vieira é a minha cidadã portuguesa preferida, pela qual faria esforços incomensuráveis como tornar-me vegetariano ou votar Bloco de Esquerda. Mas a beleza de Cláudia, de tão renascentista e clamorosa, é perturbadora se assim exposta em cada esquina, para mais com roupa interior, poses de doce entrega e aquele sorriso que o próprio senhor della Francesca nunca logrou conseguir, por mais pinceladas e pigmentos que tentasse. Embora eu aprecie desmesuradamente tal visão, que vai além do simplesmente belo e convoca espantos e terrores do sublime, tal como Burke os teorizou, embora eu a aprecie, digo, também me causa danos graves. Dores no peito, taquicardia, dificuldade de respiração, perda da fala, fraqueza nas pernas e braços, desmaios. São sintomas misturados de várias crises, mas é exactamente aquilo que sinto com estas campanhas da Triumph."
Pedro Mexia"A Triumph recorreu pelo segundo ano consecutivo à modelo Cláudia Vieira para publicitar a sua lingerie. Nos media e na blogosfera, os anúncios com Cláudia Vieira provocam a alegria do género masculino e o silêncio do género feminino. Estranha divergência: a campanha publicita produtos para as mulheres mas são os homens que cantam hossanas.(...)
Ao contrário da Susana desnuda de Tintoretto, Cláudia Vieira veste os produtos para venda mas é uma mulher do nosso tempo no olhar confiante que dirige para a câmara no anúncio "Rainha Mãe". Não se esconde como Susana, mostra-se. E no outro anúncio ela ri-se da História e como que diz, espetando os peitos no sutiã rosado, "São rosas, senhores". Criam-se mitologias contemporâneas.
Vieira exibe uma rara superioridade, dela mas também um dom, que ultrapassa essa limitação mesquinha, pois apresenta-se, de facto como um insuperável símbolo de beleza feminina e erotismo que consegue situar-se no domínio da estética, subindo a escada do sublime. O uso do conceito de "rainha" nestes anúncios vai nesse sentido. O erotismo é sublimado por uma visão de "arte pela arte", o corpo transformado em arte. Que isto suceda na arte vã e apressada da publicidade é digno do maior elogio."
Eduardo Cintra Torres