quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vertigem e Conforto



Gostei deste Michael Mann. Histórica verídica da ultima etapa de vida do famoso assaltante de bancos Joe Dillinger, após a sua fuga da prisão. É um retrato muito bem ilustrado de uma época e de um tempo. Numa batalha em campo aberto, sem mediação, entre Dillinger e o metódico detective Melvin Purvis. Em Dillinger está lá o homem, o sofredor, o injustiçado que esteve 8 anos preso por ter assaltado uma mercearia, vivendo o pós-prisão com uma infindável dose de confiança, inteligência e coragem que o parece tornar indestrutível. É quiça a faculdade dos homens que querendo-se vingar da injustiça do mundo, sentem que já não têm nada a perder. É aqui preciso deixar a ressalva que Dillinger jamais robou um individuo na sua segunda vida de assaltante, "apenas" assaltava bancos, o que o tornava num herói do povo em tempos de miséria da Grande Depressão.
Como em "Heat - Cidade Sobre Pressão", "Public Ennemies" desenvolve o temática do jogo do gato e do rato. Dillinger (Johnny Depp) está sempre ao ataque e Purvis (Christian Balle) pratica um calculado cattenaccio, neutralizando as armas e o terreno que Dillinger havia conquistado para no final, numa jogada de pura artimanha, atacá-lo inesperadamente. Já decorria um ano de duelo épico que se eternizava : cheio de sangue, golpes, contragolpes e provocações temerárias de Dillinger. Acabando no fim por ser a "erva daninha" a corroer o destino do protagonista e dar a vitória a Purvis. A propósito, a denunciadora romena Anna Sage acabaria mesmo por ser deportada. Algo que não surge nas legendas finais dos destinos dos protagonistas, o que poderia acentuar o efeito queima roupa do golpe final.
"Public Ennemies" é um dos melhores filmes de Mann. Ponho-o ao lado de Heat - Cidade sobre Pressão", atrás de "Insider" e mais atrás ainda da obra-prima "Miami Vice" (o filme).
Michael Mann é um realizador moderno e peculiar na forma como encadeia os planos e sabe iluminar os seus filmes. Conjugando tudo com um fundo musical e banda sonora que nos transporta para um género de conforto tenso. Essa marca muito própria, em consonância com uma temática adulta e intelectualmente masculinizada, é uma reflexão e ilustração do tema do homem livre em suspenso contra o mundo. Não existe ali possível mediação, a acção está na carne e no osso. A aniquilação absoluta é algo iminente. O jogo do gato e do rato encontra-se também na dialéctica conforto versus liberdade. Mas é neste jogo que está o motor dos melhores filmes de Mann. Por vezes acelera, tornando-se vertiginoso e acelerando o climax. Outras vezes deixa-nos num limbo, como o silêncio que anuncia a tempestade.
Este é em minha opinião o grande trunfo do cinema de Mann - o saber combinar a estética com a vertigem. De uma forma que nos faz dar como muito bem entregue o tempo dedicado a ver alguns dos seus filmes.